Nenhum assassinato político deve ser comemorado
Insistir que nenhum assassinato político deve ser comemorado não significa neutralidade ou indiferença frente a disputas ideológicas. Significa, ao contrário, reconhecer que a política perde sua legitimidade quando se permite que a morte substitua o debate

Imagens de violência política correram os noticiários na semana passada. No Nepal, a ex-esposa do premiê foi queimada viva por manifestantes. Nos Estados Unidos, ocorreu o assassinato político violento de Charlie Kirk, influenciador político e apoiador do trumpismo. Nas redes sociais, facilmente encontra-se discursos recorrentes de enaltecimento, sátira e comemoração dessas mortes.
No caso do Nepal, postagens afirmavam: “O Brasil precisa Nepalizar”, “O único debate possível de existir é o de como aniquilar a esquerda” e “A posição moderada a partir de hoje é queimar todo esquerdista vivo”. Todas essas frases foram publicadas em perfis abertos nas redes sociais. Do mesmo modo, vi também manifestações satíricas e de comemoração sobre a morte de Kirk, como: “Adoro que esses malucos deixaram de atirar nas escolas e passaram a atirar nas pessoas certas” ou ainda “Triste demais para a esquerda que até os arrombados que morre não foi um de nós que matou”.
Este ensaio nasce do incômodo com a recorrência de discursos que enaltecem a violência política. Esses episódios revelam algo preocupante: a normalização e a satirização da violência política e, com isso, a consequente desumanização do outro.
A história política é marcada por episódios de violência que mudaram rumos de nações e redefiniram equilíbrios de poder. Do assassinato de Abraham Lincoln à execução violenta de Marielle Franco, o assassinato de figuras públicas sempre provoca comoção e repercussões profundas. Entretanto, o que deveria ser universalmente reconhecido como tragédia muitas vezes é apropriado como triunfo. Há aqueles que, diante de um assassinato político, celebram a eliminação de um inimigo, confundindo a morte de uma pessoa com a vitória de uma causa. É justamente contra essa lógica que precisamos insistir: nenhum assassinato político deve ser comemorado.
A celebração da morte de adversários políticos não apenas banaliza a violência, mas também legitima uma cultura que coloca a eliminação física do outro como horizonte aceitável do conflito político. Quando a política se converte em guerra total, a negociação, o desacordo democrático e a convivência compartilhada perdem terreno. Comemorar um assassinato equivale a admitir que as diferenças não podem ser resolvidas por meio das instituições, pela política ou pelo rigor da lei, mas sim pela força bruta. É uma lógica que corrói os fundamentos da vida democrática.
Do ponto de vista ético, comemorar a morte violenta de um ser humano é repugnante, por mais que discordemos absoluta e fundamentalmente da posição política defendida por essa pessoa. Ela continua sendo uma pessoa – ainda que repugnante aos nossos olhos, não merece morrer por isso. Mesmo quando consideramos que suas opiniões são manifestações de crimes de ódio, como no caso do Charlie Kirk, que publicamente já deu declarações racistas, misóginas e supremacistas, o assassinato não deveria ser visto como justificável. Para crimes de ódio, que prevaleça apenas o rigor da lei.

É nesse contexto de violência e desumanização que a reflexão precisa ir além da condenação às comemorações explícitas de assassinatos políticos e considerar também os mecanismos mais sutis de legitimação da violência: a invisibilização. Trata-se, por exemplo, dos assassinatos cometidos pelo próprio Estado contra populações historicamente marginalizadas, que convivem cotidianamente com a violência política empregada de maneira seletiva e estrutural. São mortes que, em geral, não comovem a opinião pública e, muitas vezes, se tornam apenas notas rotineiras nos noticiários. Essa ausência de indignação coletiva também é uma forma de normalização, pois transforma a violência em algo banalizado a depender de quem é a vítima. Como observa a filósofa política Elsa Dorlin: “Uma vez que corpos tornados minoritários são uma ameaça, pois fonte de um perigo, agentes de qualquer violência possível, a violência que se exerce continuamente contra eles, começando pela violência da polícia e do Estado, não é vista como a violência crassa que é: torna-se secundária – uma reação, uma resposta sempre legitimada”. Esse olhar evidencia que a indignação diante de assassinatos políticos é seletiva, e que parte da sociedade naturaliza a violência quando as vítimas são corpos já precarizados pelo racismo, pela desigualdade social e pela exclusão.
Além disso, a comemoração da morte política alimenta o ciclo de ódio e vingança. Essa postura não fortalece causas; ao contrário, as degrada. Um projeto político que se constrói sobre cadáveres celebra a destruição em vez da pluralidade da vida e a violência em vez da convivência – mesmo que marcada pelo dissenso.
A dignidade humana não pode ser relativizada por afinidade ideológica. Uma democracia só é sólida quando reconhece que até o adversário mais repugnante aos nossos olhos possui direitos inalienáveis – entre eles, e especialmente, o direito à vida. A recusa em comemorar o assassinato político é, portanto, mais do que uma posição política: é um compromisso com a universalidade dos direitos humanos e com a preservação das regras mínimas de coexistência democrática.

Diante disso, insistir que nenhum assassinato político deve ser comemorado não significa neutralidade ou indiferença frente a disputas ideológicas. Significa, ao contrário, reconhecer que a política perde sua legitimidade quando se permite que a morte substitua o debate. Implica em defender que a luta democrática se mantenha no terreno das palavras, das instituições e da mobilização social, e não da violência letal.
No entanto, é importante reconhecer que, embora manifestações de comemoração da violência política possam ser encontradas tanto à esquerda quanto à direita, há uma diferença crucial de postura que deve ser considerada. Uma coisa é a circulação difusa, entre apoiadores e pessoas comuns, de reações emocionais em redes sociais; outra, muito distinta, é quando lideranças políticas – investidas de autoridade e de poder simbólico – validam, difundem e normalizam a linguagem da violência política e da desumanização do outro.
Nesse ponto, a balança não é equilibrada. O trágico assassinato de Charlie Kirk, por exemplo, motivou a extrema direita a se pronunciar de forma veemente contra a violência política. Curiosamente, trata-se do mesmo campo político que permaneceu em silêncio, ou até mesmo em conivência, quando Marielle Franco foi brutalmente assassinada. A memória da vereadora carioca não foi apenas negligenciada: foi vilipendiada em praça pública, quando em 2018 dois políticos de direita rasgaram a placa simbólica com o nome de rua em sua homenagem, transformando um ato de memória em um gesto de escárnio.

A reação recente da direita, que inclusive tem se autoidentificado explicitamente como “extrema direita”, como afirmou o deputado Nikolas Ferreira recentemente em um post ao dizer “Seja a extrema direita que eles tanto têm medo”, mostra uma contradição flagrante: só quando a violência atinge uma liderança do próprio campo político é que surge a disposição de condená-la. A universalização da defesa da vida, como princípio ético e político, não pode ser seletiva. Do ponto de vista moral, essa seletividade não é cristã.
Assim, quando uma sociedade aprende a não celebrar a morte, mas a defender a pluralidade do dissenso, ela se fortalece contra o autoritarismo, o ressentimento e a intolerância. A condenação ética da comemoração de assassinatos políticos é, em última instância, uma defesa da própria democracia – e do valor fundamental dos direitos humanos.
Como lembrou Martin Luther King: “Não é simples adotar o credo de que a força moral tem tanto poder e virtude quanto a capacidade de devolver um golpe físico; ou que se abster de bater de volta requer mais vontade e coragem”.
Lilian Sendretti é cientista política pela Universidade de São Paulo (USP) e pesquisadora do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (CEBRAP)

