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EDITORIAL
Crise mundial e integração regional
Claudius
por Silvio Caccia Bava

A crise financeira internacional ameaça tornar-se mais aguda outra vez. Os governos, endividados com o resgate dos bancos privados em 2008, não conseguem pagar a dívida pública. Grécia e Irlanda foram os primeiros, agora Portugal e Espanha dão sinais de que podem ser os próximos. Nos Estados Unidos, a situação não é diferente, o novo pacote de US$ 600 bilhões para estimular a economia e a geração de emprego demonstra que a crise continua sem solução em curto prazo.  

Houve um momento, em 2008, em que os governos adquiriram uma parte significativa dos grandes bancos, abrindo uma possibilidade inusitada: a estatização do sistema financeiro, política adotada pela Índia dez anos atrás. Oportunidade logo afastada pelas grandes corporações financeiras, que buscam na especulação das taxas de lucro o que não conseguem mais com investimentos produtivos. De fato, se adotarmos a teoria dos ciclos de acumulação capitalista, depois dos 30 “anos dourados” que se seguiram à Segunda Guerra Mundial, as taxas de lucro vêm caindo cada vez mais. Tomando como referência as 500 maiores empresas, a revista Fortune mostra esta tendência: 60-69: 7,15%; 80-90: 5,30%; 90-99: 2,29%; 2000-2002: 1,32%. Sem lucros na produção, o capital se desloca para o cassino financeiro. 

O custo dessa operação de resgate comandada pelos grandes bancos internacionais e operada pelos governos dos países mais industrializados é o desmonte do estado de bem-estar social, construído para atender à pressão dos movimentos sociais nos anos 1960. A amarga receita neoliberal não foi abandonada e promove cortes nas políticas que asseguram direitos: aposentadorias, políticas sociais, reajustes de salários. Inglaterra, França e Alemanha recentemente foram fundo nas políticas de ajuste. O desemprego aumenta, os imigrantes são criminalizados. Estimativas da Organização Internacional do Trabalho apontam que, com a crise de 2008, mais de 200 milhões de pessoas engrossam o número dos que vivem abaixo da linha de pobreza.

A proposta de uma regulação financeira internacional que limitasse a especulação, a atuação dos paraísos fiscais, não prevaleceu, como pudemos observar na última reunião do G20. O que leva à previsão de que uma nova crise se avizinha. Pode não ser agora, mas ela certamente virá no curto prazo.  

Os protestos e as mobilizações na Grécia, na França e nas principais cidades da Europa não sensibilizaram as autoridades, agora respaldadas pelo novo Fundo Monetário Internacional, saído das cinzas mais poderoso que nunca e transformado no gendarme desses ajustes. A direita avança na composição dos parlamentos e na formulação das políticas de governo. O fenômeno do Tea Party não é só estadunidense. Os fundamentalismos rondam o mundo ocidental. Eles apareceram até na eleição brasileira deste ano, na discussão pública dos temas da crença em Deus e do direito ao aborto.

Um outro elemento revela, no entanto, a crise de hegemonia do atual sistema de poder. É a ascensão do BRICS1 e o fortalecimento de blocos regionais.  A China hoje se tornou a segunda maior economia do mundo, e o crescimento dos países menos industrializados, em razão da valorização do preço das commodities2, atesta esse movimento. O PIB mundial cresceu 22,32% no período de 2003-2008. Os países industrializados cresceram 9,19% e o chamado “terceiro mundo” cresceu 45,89% neste mesmo período3. O que indica como tendência uma nova configuração de poder, o surgimento de um mundo multipolar, organizado em blocos regionais.

Neste cenário mundial, a América Latina se apresenta como algo singular. Ainda que de certa maneira a “onda de esquerda” tenha se arrefecido, como demonstram as eleições no Chile, uma maior presença da oposição no Congresso da Venezuela e a reafirmação de governos conservadores na Colômbia e no Peru. Nem por isso esse bloco regional que se articula na Unasul deixou de ter características progressistas que incomodam a hegemonia estadunidense. É nessa chave que podemos compreender tentativas de desestabilização de governos eleitos democraticamente na Venezuela, Bolívia, Equador, Honduras, ou mesmo a notória fraude eleitoral nas últimas eleições mexicanas.

As recentes eleições no Brasil foram fundamentais para garantir a continuidade desse esforço de constituição de uma política regional autônoma, de um bloco regional que tenha maior capacidade de defesa de seus interesses no cenário internacional.  E a integração regional parece dar novos passos. A Bolívia negocia com o Peru a sua saída para o mar. A Colômbia anuncia que não permitirá a presença de bases militares estadunidenses em seu território. A estrada transoceânica que liga o Brasil ao Pacífico fica pronta este mês.  A Unasul dá passos importantes e se propõe a produzir uma matriz energética comum, a integração física pela via da construção de estradas e portos, a integração de bases produtivas, inclusive da indústria bélica.

Silvio Caccia Bava

Diretor e editor-chefe do Le Monde Diplomatique Brasil


1 Brasil, Índia, China, África do Sul.
2 Commodities são bens naturais sem transformação: minerais e alimentos, como petróleo, cobre, ferro, carvão, gás, soja, arroz, café, carne etc.
3 Dados da Cepal – Comissão Econômica para a America Latina.

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comentários
3 comentários

22/06/2016 - 12:06hs - Best STD Testing Clinics and Labs
I like the comment and content of the website over here very much. Thanks
07/08/2015 - 14:47hs - Gedeb
Su artículo es impresionante. Me gusta.
06/12/2010 - 12:53hs - Sandro Vila Nova

Os países do agrupamento BRICS da nota 1 não incluiriam a Russia? A inclusão da Africa do Sul no contexto de relações internacionais com o Brasil se dá pelo agrupamento IBAS, que envolve Índia, Brasil e Africa do Sul. Assim o define o Ministério de Relações Exteriores brasileiro.

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