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Economia política
Criação de valor ou extração de lucro?

Desde o início da prática de shareholder value, a obrigação de atender aos interesses dos acionistas é a principal preocupação das empresas. Muitas vezes, as decisões são tomadas apenas levando em consideração o quanto cada um deles enriquecerá

por Isabelle Pivert

No final dos anos 1980, a prática da criação de valor em favor do acionista começou a se impor. Esse conceito, que leva o nome, em inglês, de shareholder value, não só transformou por completo a organização e o funcionamento tradicionais das empresas como também alterou a coesão social da quase totalidade dos países industrializados.

Desenvolvida pelos departamentos de “fusões e aquisições” dos bancos de negócios anglo-saxões, a shareholder value visava inicialmente determinar os ganhos obtidos pelo acionista com uma operação de fusão ou de compra entre duas companhias. Aos poucos, ela se tornou o indicador referencial do desempenho financeiro da empresa, em detrimento de toda lógica econômica e industrial.


As empresas que até então eram instadas a crescer, buscar fusões, a se engolir entre si ou desaparecer em nome das economias de escala e da conquista de um tamanho crítico, passaram a ser alvos dessas pressões com o único objetivo de proporcionarem uma remuneração máxima para os seus acionistas. Essa remuneração, aliás, não dependia mais unicamente de uma distribuição de dividendos (geralmente calculados a partir do lucro), mas sim, cada vez mais do aumento da cotação da ação da sociedade.

“Daqui para frente, vocês trabalharão unicamente para o acionista!” É assim que a executiva comercial de uma multinacional da indústria farmacêutica se recorda da apresentação feita por seus dirigentes sobre o conceito da criação de valor. “Isso me causou um choque! Depois, eles nos explicaram que nós, os funcionários, também seríamos beneficiados com isso, uma vez que se enriquecêssemos o acionista, receberíamos prêmios e aumentos”.

A partir de meados dos anos 1990, a shareholder value passou a ser utilizada como um princípio unificador e até mesmo “racionalizador”, uma vez que ela começou a ser aplicada a quase todos os setores.

Uma empresa cotada na Bolsa de Valores tem por obrigação servir da melhor maneira possível seus acionistas com rendimentos, isto é, com dividendos obtidos do investimento, que podem alcançar – e por vez superar – os 15% ao ano.

A obrigação de atender aos interesses do acionista encontra-se então codificada pela expressão corporate governance, a (boa) governança de empresa, cujo princípio natural e implícito é responder a uma única e mesma pergunta, no momento de tomar cada decisão: isso deixará o acionista mais rico?

Para Didier C, diretor-geral de uma sociedade francesa do setor automobilístico que foi comprada em 2005 por um grupo japonês, a empresa cotada “tem por obrigação mostrar um bom desempenho na Bolsa, mas a inovação, cujos dividendos obtidos em função do investimento só aparecem a médio ou longo prazo, padece dessa abordagem. Isso nos afasta radicalmente da estratégia industrial: a empresa só existe para ‘vomitar’ resultados a serviço das instituições financeiras”.

Os executivos dirigentes, cuja remuneração em stocks options alinhou os interesses com os dos acionistas, não têm outra escolha senão selecionar o cenário que eles consideram como o mais suscetível de fazer subir, o mais rápido e o mais alto possível, a cotação na Bolsa.

Com isso, determinada atividade existente da qual se espera “apenas” 8% anuais de retorno, em função dos capitais investidos – sendo, portanto, rentável – será abandonada ou menosprezada em proveito daquelas capazes de gerar taxas superiores a 10% e até mesmo a 15%.

Na indústria farmacêutica, onde os ciclos de pesquisa são muito extensos, esta lógica financeira busca a identificação prévia dos clientes mais promissores em toda decisão de investimentos relativa à pesquisa aplicada.

Entre a malária que atinge milhões de pessoas em países pobres e a obesidade, que atinge países ricos, a opção relativa à pesquisa se fará em proveito da segunda, considerada como a mais favorável para a evolução da cotação na Bolsa.

Segundo Didier C., a necessidade de se obter lucros no curto prazo impõe um ritmo extremamente difícil para as empresas. A globalização e a transferência de empresas para o exterior são decorrência disto.

Para os fabricantes de equipamentos automotivos, a obrigação de se mostrarem sempre mais lucrativos se traduz por uma redução no custo do trabalho.

“No nosso setor, quando me obrigam a aumentar meus resultados em 10% ou 15%, demito os empregados franceses e contrato outros nas minhas usinas na China ou na Índia. Mas, assim fazendo, estou matando a empresa, porque o meu know-how continua sendo mais importante na França e preciso lutar para mantê-lo”.

Para Gérard S., gestor de fundos de pensão, “em nove em cada dez casos, quando uma empresa anuncia que está transferindo 10% dos seus centros de produção da França para a Ásia, verá sua cotação na Bolsa subir no mesmo dia”.

Disso nasce a contradição, para não dizer a perversidade, da criação de valor: por estar baseada no curto prazo, ela se opõe à própria noção de empresa que é uma aposta dinâmica e ponderada no futuro. Esta contradição é agravada pela crença de que a batalha voltada para o curto prazo acompanha necessariamente uma concorrência desenfreada e permanente.

“É preciso se sentir numa situação de perigo, adaptar-se, investir”, considera Jean-Marc P., um especialista em investimentos de capital de risco.

Por sua vez, Jean-Michel L., especialista em recrutamentos, avalia que os administradores deturparam de maneira singular uma célebre declaração do economista John Maynard Keynes: “No longo prazo, todos nós já morremos’, portanto, a única coisa que valha é o cotidiano”.

Diante da pressão dos acionistas, os executivos dirigentes da empresa desenvolveram estratégias individuais de “sobrevivência”, que incluem práticas novas de desvio de material ou de mercadorias, além de retenção de informação. De maneira simétrica e prévia, a propaganda, a omissão e a mentira, se tornaram modos corriqueiros de administração operacional – fala-se até mesmo em “administração pelo terror”.

Num meio onde a concorrência é deliberadamente exacerbada, aquele que não se adapta à norma em tempo hábil é excluído.

Segundo Didier C., “anteriormente, o sindicato desempenhava um papel de intermediário entre os destinos individuais e a política da empresa. Na situação atual, os que permanecem empregados são aqueles cujas aspirações individuais correspondem, em última instância, às necessidades da empresa, sem que eles venham a precisar da intermediação de quem quer que seja”.

A adaptação à norma provoca ajustes por antecipação ou por mimetismo, conforme sublinham os analistas da agência de risco Fitch: “O fato de se transferir a produção para países com baixos custos salariais não proporciona necessariamente uma vantagem em relação à concorrência, mas constitui provavelmente uma nova norma”.


É justamente nesse processo de deterioração das relações que reside o perigo para as democracias, que vêem se desenvolver dois tipos de empregos portadores de germes autoritários. O primeiro diz respeito à comunicação-propaganda, quer ela seja praticada no interior, quer no exterior da empresa. O segundo, ao controle e à segurança no âmbito da empresa, mas também fora dela.

Contrário às liberdades públicas, o crescimento dessas profissões está baseado na incapacidade, por parte da maioria dos políticos atuais, de questionar uma crença maciça num capitalismo fundamentalmente bom (os neoliberais) ou finalmente bom (os social-democratas).

Mesmo que o capitalismo financeiro te
nha sofrido profundamente com a crise, quantos apelam para a sua “moralização”?

 

Isabelle Pivert

é ensaísta, autora de Soleil capitaliste, entretiens au coeur des multinationales, Le Sextant, Paris 2006 e de Plan social, entretiens avec des licencieurs, Le Sextant, 2004.


05 de Março de 2009
Palavras chave: shareholder value, ações
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