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Povos Indígenas
Viagem aos Zo’é

A situação experimentada pelo Projeto Zo’é é única: pela primeira vez conseguiu-se reverter os males de um contato inicial degradante de um povo isolado com a sociedade mais ampla. Afetuosos, acolhedores, comunicativos, eles abandonaram as roupas e voltaram à alimentação tradicional, sem bens comprados

por Betty Mindlin

É um impacto e um privilégio conhecer os Zo’é, povo contatado em 1987 e ainda considerado isolado. À nossa chegada, cercou-nos uma pequena multidão risonha, confiante, curiosa. Corpos lindos em seu adorno de nudez, com as vestimentas muito suas: as tiaras de plumas de urubu-rei das mulheres, os colares e pulseiras de caramujo, os estojos penianos e – o que chama mais a atenção – os compridos e largos tembetás, confeccionados em madeira e usados por homens e mulheres nos furos abaixo dos lábios.

Afetuosos, acolhedores, comunicativos. Falam apenas a sua língua, da família tupi-guarani, mas como fui acompanhando a lingüista Ana Suelly Arruda Câmara Cabral, pesquisadora e amiga deles desde 1992 – aliás, que sempre quis me levar para conhecê-los e com quem trabalho em vários povos – posso arriscar algumas frases e atormentá-la para me ensinar. O convite para essa permanência de duas semanas foi do chefe da Frente Etnoambiental Cuminapanema, o indigenista João Lobato – meu amigo desde os anos 1980, quando ele enfrentou, como contratado da Funai (Fundação Nacional do Índio), as duras condições da fronteira colonizadora em Rondônia –, de Rosa Cartagenes, sua mulher, uma defensora incansável dos Zo’é, que publicou sobre eles belos artigos. Com esses três guias generosos – Ana, João e Rosa –, fui descobrindo o universo Zo’é, as aldeias e a floresta, sendo apresentada às famílias. Muitas características são totalmente novas para mim, raras em outros povos, como a poliandria – as mulheres casadas com vários maridos – combinada com a poliginia, um homem com muitas esposas. Temos muito a aprender com o amor indígena, penso, ao ver uma linda moça na rede, entre seus dois maridos.

O Projeto Zo’é, do qual eles são o foco, é um sucesso. Motivo de orgulho para o Brasil, na esteira das grandes experiências mundiais de defesa dos índios, sendo a mais famosa delas a dos irmãos Villas-Boas com a criação do Parque do Xingu. Em 1987, os Zo’é haviam sido contatados pelos missionários das Novas Tribos do Brasil, com o intuito de convertê-los ao fundamentalismo evangélico e levar-lhes os costumes da sociedade industrial, fazendo deles trabalhadores monogâmicos e submissos à produção para o mercado. No início, o resultado foi uma mortalidade de 25% da população, por gripe e outras doenças.

O massacre cultural e físico gerou protestos da opinião pública e a Funai intercedeu a partir de 1989. Sidney Possuelo, presidente da entidade entre 1991 e 1993, conseguiu expulsar os missionários no primeiro ano de sua gestão. Sua diretriz para povos isolados era defender as terras indígenas e interferir o mínimo possível em suas vidas.

Em 1996, Possuelo, dirigindo na Funai os trabalhos com povos isolados, convidou João Lobato para a chefia do Projeto Zo’é. A situação experimentada a partir de então é única: pela primeira vez conseguiu-se reverter os males de um contato inicial degradante de um povo isolado com a sociedade mais ampla. Pouco a pouco Lobato foi persuadindo os índios a abandonarem suas roupas, em farrapos, e a consumirem apenas bens essenciais, como terçados, facas, anzóis, linhas, lanternas e pilhas, sempre com moderação. A alimentação voltou a ser a tradicional, sem bens comprados. Sem venda de artesanato ou uso de dinheiro. O posto da Funai e os visitantes não compartilham qualquer iguaria com os índios – nem as deles nem as nossas, é uma das regras do projeto. Um sacrifício para gulosas e presenteadoras como Ana Suelly e eu!

O padrão alimentar deve ter contribuído muito para as excelentes condições físicas dos indígenas. Apesar dos recursos financeiros relativamente escassos, a população vem crescendo a uma taxa de 4% ao ano, com poucos óbitos. Lobato conseguiu também uma boa interação com a Funasa (Fundação Nacional de Saúde), que leva médicos e dentista até os índios. Só recorrem a atendimento médico na cidade em casos absolutamente excepcionais. Até pequenas cirurgias podem ser feitas in loco. Lá trabalham duas enfermeiras e há um consultório odontológico. A vacinação é integral. Há ainda radiocomunicadores nas 14 aldeias, facilitando o socorro em caso de acidentes. Nos partos, nenhuma interferência: considera-se que expor os índios aos males urbanos, em hospitais e maternidades, é ainda pior que eventuais problemas, em geral sanados pelos curadores indígenas.

As terras Zo’é estão demarcadas numa extensão de 624 mil hectares, entre os rios Erepecuru e Cuminapanema, no Pará, e permanecem sob constante fiscalização contra invasores. Os estudos para a delimitação foram feitos por uma prestigiosa antropóloga da Universidade de São Paulo, Dominique Gallois, com a colaboração de uma pesquisadora da cultura Zo’é, Nadia Havt.

Todo esse paraíso corre sempre o risco de desabar, como o céu dos mitos indígenas prestes a cair sobre a terra, exterminando a humanidade. Em primeiro lugar, a demarcação ainda não foi homologada – mas é prioridade da Funai, assegura Maria Auxiliadora Leão, diretora de assuntos fundiários da instituição. Além disso, o entorno da terra indígena está cada vez mais sujeito à devastação, com o avanço da soja, a construção da rodovia Cuiabá–Santarém, as mineradoras e outros grandes interesses econômicos, que cobiçam o potencial dos índios. Do avião, partindo de Santarém, a destruição antes de chegar aos Zo’é é assustadora. É preocupante também a influência de índios evangelizados, ligados a estes grupos econômicos, que poderiam levar esse povo a abandonar seus valores novamente e a entrar, como tantos outros, numa espiral infindável de necessidades monetárias.

A indagação sobre como preparar um pequeno povo de 260 pessoas para o confronto com um mundo gigantesco e predatório, e de como satisfazer sua curiosidade e seus anseios de consumo, está presente. Hoje, os conhecimentos que têm do exterior provêm de filmes, exibidos em noites de alegria, e dos visitantes, muitos dos quais cineastas e artistas estrangeiros. Seria fantástico, me parece, se tentassem criar uma escrita, ou filmar, compor, pintar, algo que nunca foi feito em um povo isolado e que reforçaria o valor de sua própria tradição, com formas novas de expressão.

Quando pensamos nas invasões que atingem quase 90% das terras indígenas brasileiras, o feito que é manter a vida indígena tradicional e as florestas Zo’é em mais de 600 mil hectares merece atenção mundial. O grande desafio do Projeto Zo’é é proibir as invasões, a conversão religiosa e a destruição ambiental. Tarefas gigantescas, impossíveis de realizar sem a contribuição dos que defendem os direitos humanos e dos povos e sem trabalho qualificado junto à comunidade.

Betty Mindlin Antropóloga, é autora de Diários da floresta, entre outros livros. Faz parte do Conselho Editorial de Le Monde Diplomatique Brasil.


04 de Novembro de 2008
Palavras chave: Índios, Zo´é, Funai, Brasil
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